
Tisa Paloma Longo CRP 08\11412
Psicoterapeuta Cognitivo-Comportamental
Especialista em Psicopedagogia
Artigo originalmente publicado na revista RUBS, Curitiba, v.1, n.1, p.46-54, jan./mar. 2005.
Separação mãe-filho e auto-regras: o que as mães dizem e fazem quando deixam os filhos na creche
Maria Lúcia Lupepsa, Tisa Paloma Longo,
Jane Carmem da Silva Machado e Andréia Schmidt
1 INTRODUÇÃO
O aumento da participação feminina no mercado de trabalho é um fato na atual conjuntura do país. Dados do IBGE apontam que, no período entre 1940-1990, a força de trabalho feminina passou de 2,8 milhões para 22,8 milhões de pessoas, aumentando sua participação na população ativa do país de 19% para 35,5%; dados do DIEESE mostram que a taxa de participação das mulheres que residem na região metropolitana de São Paulo foi de aproximadamente 55% em 20031. Tal fato pode ser atribuído a dois grandes conjuntos de fatores.
Primeiro, porque a procriação já não afeta um longo período da vida profissional das mulheres, dadas as possibilidades, cada vez maiores, de se fazer o planejamento familiar2 . Isso contribui para que as mulheres possam dedicar seu tempo à construção de uma carreira e à busca de reconhecimento social por meio do trabalho. Segundo, como resultado da conjuntura socioeconômica, que força um grande contingente de mulheres a se ausentar de casa para contribuir com o sustento da família. [clique para continuar a leitura]
Há décadas, a mulher costumava fazer um movimento de abandono da vida profissional e retorno ao lar após a maternidade, por insegurança de deixar os filhos fora de casa e com pessoas estranhas, e pelo número insuficiente de creches para atender às necessidades das mães trabalhadoras3. Essa atitude garantia à mãe (ao menos em parte) uma maior tranqüilidade em relação ao acompanhamento do desenvolvimento do filho, especialmente nos primeiros anos de vida da criança, em que grandes conquistas são empreendidas, movidas, em parte, pela interação especial que se estabelece entre a mãe o bebê4.
O vínculo formado por mãe e filho é denominado de comportamento de apego, que é definido como qualquer forma de comportamento que resulte em uma criança alcançar, formar e manter proximidade com algum outro indivíduo que é considerado mais apto para lidar com o mundo. Esse relacionamento de apego evidencia a importância da ligação emocional que se desenvolve entre a mãe e seu bebê, orientando o desenvolvimento afetivo, cognitivo e social desse bebê. Além disso, essa atmosfera de vinculação gera afeição e segurança, sendo necessária para a estruturação de uma criança saudável, capaz de lidar eficazmente com o seu meio físico e social5 .
Os efeitos da separação entre mãe e bebê nas fases iniciais de desenvolvimento, em função de contingências socioeconômicas e/ou em função dos investimentos pessoais da mulher, têm sido amplamente estudados pela literatura psicológica. A maioria dos estudos aponta que, de modo geral, não há diferenças significativas entre o desenvolvimento de crianças que freqüentam berçários e aquelas que ficam em casa, tanto em relação à formação de vínculos de apego com pais e mães, quanto em relação ao desenvolvimento cognitivo6.
No entanto, pouca atenção tem sido dada ao estudo da separação entre mãe e bebê do ponto de vista das mães. Pouco se sabe sobre como elas enfrentam os eventuais problemas decorrentes dessa separação e sobre como elas descrevem esse momento.
Entender como as mães descrevem a situação de separação do seu bebê é importante,
pois a forma como descrevemos certas situações direcionam nossa forma de agir. Por exemplo, se descrevemos uma dada situação futura (por exemplo, um encontro com determinada pessoa) como um evento potencialmente perigoso ou desprazeroso, comportamo-nos de maneira a evitar ou diminuir a ocorrência dos perigos descritos. Da mesma forma, se a mãe descreve a situação de separação com seu bebê como algo potencialmente perigoso ou, ao contrário, como agradável para a criança, agirá de acordo com essas descrições. A descrição das relações entre um dado comportamento e suas conseqüências pode ser chamada de regra7. Quando as pessoas formulam regras para si mesmas (como descrições de relações entre eventos e comportamentos em suas próprias vidas) e passam a se comportar de acordo com elas, dizemos que elas formularam (e se comportam sob controle de) auto-regras8.
O estudo de regras e auto-regras que são formuladas por mães a partir das suas vivências de separação com seus bebês em função do ingresso destes na creche pode auxiliar na compreensão de muitas das práticas educativas adotadas por essas mães trabalhadoras na atualidade, contribuindo não só para o entendimento dos efeitos dessas práticas sobre a conduta das crianças, mas também para entender as possíveis dificuldades emocionais pelas quais as mães passam no processo de separação de seus filhos.
Esta pesquisa teve como objetivo verificar como as mães que trabalham e deixam seus filhos em creches públicas ou em escolas particulares descrevem sentir-se em relação à separação de seus bebês, em relação à creche ou escola pública ou particular em que deixam seus filhos, e o que elas relatam fazer para diminuir os sentimentos negativos que têm em relação a passar a maior parte do seu tempo longe de seu filho. Assim, investigaram-se quais as regras que a mãe formula no processo de inserção da criança na creche/escola em decorrência de ter que trabalhar ou estudar, bem como os comportamentos que elas emitem em função dessa contingência de separação.
2 METODOLOGIA
Participantes: Participaram desta pesquisa 30 mães com filhos na faixa etária entre 0 e 2 anos (fase em que o processo de vínculo se estrutura tanto no bebê quanto na mãe9 ). As mães já haviam retornado da licença maternidade e os bebês permaneciam sob os cuidados de uma creche pública ou particular durante o horário de trabalho da mãe. Na amostra, a maioria das participantes encontra-se na faixa etária entre 21 e 30 anos (19 no total), sendo que 22 eram casadas, seis solteiras e duas separadas. A renda familiar das mães que deixavam os filhos na creche pública situava-se entre um e cinco salários mínimos e entre as mães de escola particular, entre um e dez. A grande maioria das crianças permanecia na creche em período integral, tanto em creche pública, quanto em creche particular.
Instrumentos: Foi aplicado nas mães um questionário anônimo, elaborado com sete perguntas abertas e doze fechadas. As perguntas abordaram alguns aspectos sobre a separação entre a mãe e o bebê: as regras que a mãe formulava sobre a contingência de separação propriamente dita, os comportamentos encobertos que ela apresentava (sentimentos e pensamentos sobre a separação) e os que ela atribuía à criança na separação, e os comportamentos que ela apresentava em relação ao filho em função dessa separação.
Procedimento: As mães foram contactadas através das creches públicas e particulares que seus filhos freqüentavam. A creche ficou responsável por encaminhar os questionários para as mães pela agenda do bebê, e estas responderam sem a presença das pesquisadoras para que não houvesse interferência nas respostas. As mães entregaram os questionários para a escola que, por sua vez, os encaminhou para as pesquisadoras.
3 RESULTADOS
De um modo geral, os dados mostram que a grande maioria das mães considera a
solução de deixar os filhos em creches como algo positivo. No entanto, todas as mães relataram que tentam compensar o tempo de afastamento do bebê com algum comportamento específico. Os mais freqüentes foram dar carinho, brincar, fazer tudo para o filho e passar todo o tempo possível com ele.
Os dados apresentados na Tabela 1 referem-se às respostas das mães em relação às perguntas sobre a experiência vivenciada de deixar seus filhos na creche. De modo geral, pode-se observar que as mães que deixam seus filhos em creches públicas predominantemente descrevem essa experiência como algo negativo, tanto em relação ao que elas sentem, quanto ao que elas presumem que as crianças sentem. As mães que deixam seus filhos em creches particulares também interpretam essa experiência como predominantemente negativa, mas, diferente das mães de crianças que ficam em creches públicas, presumem que seus filhos sentem a entrada na escola como algo positivo.
A maioria das mães de crianças que freqüentam creches particulares não relatou a
ocorrência de sentimentos aversivos ao ficar longe de seus filhos enquanto trabalham, formulando descrições positivas em relação a essa separação. Esse dado difere do das mães de crianças de creches públicas, que, mesmo com o passar do tempo, relataram não se habituar com o fato de permanecerem longe de seu filho durante o seu período de trabalho.
Esses dados aparentemente conflitam com as respostas das mães às perguntas fechadas (em que elas deveriam concordar ou discordar de uma série de afirmativas sobre a situação de separação). A Tabela 2 apresenta a porcentagem de concordância das mães com afirmações sobre aspectos positivos e negativos sobre a situação de separação dos seus bebês, sobre seus sentimentos a respeito dessa separação e sobre os comportamentos que elas adotam para diminuir eventuais sentimentos aversivos decorrentes dessa situação.
De modo geral, a maioria das mães de crianças dos dois tipos de creches tendeu a
concordar com afirmações que descreviam aspectos positivos sobre esses três temas. Apesar de a maioria das mães terem ressaltado anteriormente (nas perguntas abertas) apresentar sentimentos negativos na separação de seus bebês, 73% das mães de crianças de creches públicas e 86% de mães de crianças de creches particulares concordaram com frases que descreviam sentimentos positivos sobre essa mesma contingência (Sinto-me confiante ao deixar o meu filho na creche). O mesmo ocorreu em relação às afirmações que tratavam da situação de separação em si: tanto as mães de creches públicas, quanto as mães de creches particulares concordaram com as frases que descreviam aspectos positivos nesta contingência.
4 CONCLUSÕES
Os dados obtidos com esta pesquisa apontam que as mães das creches particulares pesquisadas parecem sentir-se mais seguras em relação à escola onde deixam seus filhos do que as mães que deixam os filhos em creches públicas. Isso pode ocorrer pelo fato de que a mãe que paga pela escola onde deixa seu filho pode exercer um controle maior sobre a educação que ele recebe, podendo, em última instância, procurar outra escola para matricular seu filho, caso não concorde com algo. Essa sensação de segurança parece ser confirmada pelas descrições das mães sobre o que seus filhos sentem quando ficam na escola: a maioria das mães que deixam seus filhos em creches particulares supõe que seus filhos apresentam sentimentos positivos. O mesmo não ocorreu com as mães que deixam seus filhos em creches públicas. Além de elas declararem não se sentirem seguras quanto à escola, também atribuem mais sentimentos negativos que positivos aos filhos quando estes vão para a creche.
Os dados também mostraram que as mães, independente do tipo de escola em que matriculam seus filhos, afirmam apresentar sentimentos negativos em relação à situação de separação e comportamentos compensatórios para diminuir tais sentimentos. Esse dado parece indicar que o fato de as mães descreverem a situação de separação como negativa influencia na forma como elas se relacionam com seus filhos. Os tipos de comportamentos compensatórios apresentados por essas mães podem se constituir tanto em atitudes importantes para o desenvolvimento das crianças, como também podem se tornar, com o tempo, práticas educativas pouco efetivas ou mesmo inadequadas. Uma investigação mais aprofundada sobre os tipos de comportamentos compensatórios apresentados por mães trabalhadoras poderia trazer dados importantes para que profissionais da área de Educação e Psicologia possam planejar intervenções sobre eventuais problemas que esses comportamentos possam gerar na relação entre mães e filhos.
Os dados desta pesquisa também sugerem a importância de deixar que as mães falem livremente sobre essa situação de separação de seus filhos. Observou-se que quando lhes foram apresentadas afirmações prontas sobre a situação geral de separação, elas pareceram tender a responder de forma “socialmente aceita”, concordando com afirmações positivas sobre a situação. Porém, quando lhes foi dada a oportunidade de escrever mais livremente sobre seus sentimentos e condutas em relação a essa contingência, elas puderam expor mais seus sentimentos e angústias.
A saúde e o bem-estar das crianças é profundamente dependente do bem-estar emocional de seus pais. Dessa forma, entender o que se passa com as mães que deixam seus filhos desde cedo em escolas pode contribuir para que o profissional de saúde esteja melhor preparado para lidar com essa população.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1 SEADE – FUNDAÇÃO SISTEMA ESTADUAL DE ANÁLISE DE DADOS.
Relatório mulher e trabalho. Disponível em : <http://www.seade.gov.br/mulher/index
01.html> Acesso em : 20 out. 2004.
2 Barros A M. A mulher e o direito do trabalho. São Paulo: LTr, 1995.
3 Barroso C. Mulher, sociedade e estado no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1982.
4 Bowlby J. Apego: a natureza do vínculo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
5 Bee H. A criança em desenvolvimento. 7. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
6 Skinner BF. An operant analysis of problem solving. The Behavioral and
Brain Sciences, p. 583-613, 1984. v.1.
7 Jonas AL. O que é auto-regra? In:Banaco RA. Sobre comportamento e cognição: aspectos
teóricos, metodológicos e de formação em análise do comportamento e terapia
cognitiva. Santo André: ESETec, 1997.